A lenda diz isso. Isso é o que você ouve sobre o Tarkine. Ou Takayna. É importante a quem você pergunta, mas o lugar continua sendo um dos poucos verdadeiros desertos que restam na Austrália. Lagostins de água doce com cerca de um metro de comprimento escondem-se à sombra de Huon Pines, com 2.000 anos de idade. E de vez em quando o boato volta. Os tilacinos ainda estão por aí, rondando as densas florestas tropicais de Gondwana, no noroeste da Tasmânia.
65 milhões de anos de história aqui. Mas as histórias mais profundas não envolvem animais andando na terra ou árvores bombeando oxigênio. Eles começam antes de tudo isso. Antes mesmo que a vida complexa soubesse como começar.
“As pessoas costumam dizer que os fungos crescem na floresta”, diz a Dra. Alison Pouliot. Um micologista. Ela me conta isso enquanto o ar esfria, temperado com tempero de sassafrás. “Não haveria floresta sem fungos. Eles são os engenheiros do ecossistema.”
A fundação.
Estamos em um workshop de três dias com ela. Toxicologistas, botânicos, ecologistas. Todas as origens diferentes. O mesmo olhar quando a sujeira dá alguma coisa. Maravilha, principalmente. É fácil perceber porquê, na verdade.
Durante décadas, os taxonomistas os confundiram com plantas. Cerca de 50 anos atrás eles conseguiram seu próprio Reino. Ainda assim, eles são ignorados. Subestudado. Estimamos que existam 2 a 3 milhões de espécies. Os humanos identificaram talvez 205.000. Os cogumelos são apenas a fruta. O espetáculo. O verdadeiro corpo é o micélio – vastas teias subterrâneas, fios que conectam tudo.
100 quatrilhões de quilômetros de fio.
Estas redes permitem que os fungos formem relações simbióticas com quase 70% das espécies de plantas do planeta.
“Os fungos podem ser microscópicos”, observa Pouliot. Ou impossivelmente enorme. Ela cita um espécime em Oregon, EUA, que cobre 9 quilômetros quadrados e pesa 30 mil toneladas. Grande o suficiente para quebrar a mente. Mas ela não está aqui apenas para divulgar fatos importantes. Ela quer explorar o papel que os fungos desempenham na reparação de ecossistemas danificados.
Lemos Sylvia Plath. Fazemos “impressões de esporos”, criando fotonegativos de guelras no papel. Dissecamos a própria linguagem. Por que dizemos que o amor floresce, mas o crime cresce? As palavras ficam. Eles revelam como vemos as coisas. Ou não.
Tardes significam forrageamento. Começamos em Corinna Wilderness Village. Era uma cidade mineira. Agora um paraíso ecológico escondido nas profundezas da floresta tropical.
Seguimos o rio Pieman. A água flui devagar o suficiente para ser tinta preta, um espelho perfeito para o céu. Os pinheiros Huon curvam-se sobre ela, velhos e cansados. Depois vem a parte física. Samambaias gigantes bloqueiam o caminho. Você tem que passar por eles. O stand à frente são majestosos bosques de couro e pinheiros de aipo. Troncos enterrados sob capas brilhantes. Musgo. Líquen. Hepática. Molhado. Escuro. Vivo.
Depois a gritaria.
Gritos alegres interrompendo o canto dos pássaros. Um guarda-sol azul da Pixie avistado. Um campo de Ruby Bonnets que pareciam frutas vermelhas espalhadas pelo chão. Línguas terrestres cobertas de limo que lembram vermes emergindo da lama. Fungos de colchetes gigantes, largos como pratos de jantar. Fungos equidna escondem milhares de dentes pontiagudos sob seus gorros.
A densidade é impressionante.
Cobrimos menos de 200 metros por hora. Às vezes mais lento.
“É difícil acreditar que haja tanta diversidade num espaço tão pequeno”, diz Liz Davis. Ela está em busca de alimentos há trinta anos. Iniciou um Festival de Micologia em Orange, Nova Gales do Sul. Ela diz que caçar em outro lugar simplesmente não se compara. Pouliot concorda. Adicionar a vida subterrânea invisível às tampas e colchetes visíveis? Poderíamos voltar 100 vezes. Encontre novas espécies todas as vezes.
É inebriante.
Encontrar essas coisas estranhas e maravilhosas parece um vício. Fui “infectado por fungos” logo no início, como diz o grupo. A arquitetura da floresta tropical é subitamente visível. Sustentado por fios que não consigo ver. Mas também há raiva ali, sob a alegria. Raiva por quão pouco valorizamos este reino.
Eles mantêm o planeta unido. Quase todos os ecossistemas dependem deles. E ainda assim não temos sequer um substantivo coletivo para o grupo em si. Só pelos cogumelos.
Fico pensando nos Cogumelos de Plath. Resiliência. Força. Ela vê uma metáfora para a igualdade de género no seu avanço silencioso e imparável.
“Amanhã pela manhã / Herdaremos a terra / Nosso pé está na porta.”
Três dias depois. Andando sobre bases fúngicas. A terra não está sendo herdada, mas sim emprestada. E os credores já estão aqui, esperando no solo, invisíveis e vastos. 🍄

























