O voo é frequentemente citado como uma das conquistas mais espetaculares da evolução, mas um conjunto crescente de evidências sugere que as primeiras asas não foram projetadas para a aerodinâmica. Em vez disso, podem ter evoluído principalmente como ferramentas visuais para comunicação e caça.
O zoólogo Piotr Jablonski propõe que os primeiros dinossauros alados usavam suas proto-asas para atrair presas ou sinalizar para parceiros muito antes de eles conseguirem decolar do solo. Esta teoria desafia a visão tradicional de que o voo evoluiu diretamente da mecânica de planeio ou de corrida, sugerindo, em vez disso, que a sinalização visual foi o motor inicial do desenvolvimento da asa.
A hipótese da “exibição nivelada”
O conceito surgiu das observações de Jablonski sobre pássaros modernos no oeste americano. Ele observou que certas espécies abriam repentinamente as asas ou abanavam as penas da cauda para assustar os insetos e tirá-los de seus esconderijos – um comportamento conhecido como “exibição nivelada”. Assim que os insetos voassem, os pássaros os pegariam facilmente.
Jablonski levantou a hipótese de que se os pássaros modernos usam asas para esse propósito, seus ancestrais dinossauros provavelmente também o fizeram. Essa ideia ganhou força entre os cientistas que estudam os pennaraptorans, um grupo de pequenos dinossauros com penas que são considerados parentes próximos das aves modernas.
Por que essas asas não podiam voar
Antes de testar teorias comportamentais, os investigadores tiveram que confirmar que estes primeiros dinossauros eram fisicamente incapazes de voar. Minyoung Son, paleontólogo de vertebrados da Universidade de Minnesota, aponta várias limitações críticas:
- Área de superfície insuficiente: As asas dos pennaraptoranos eram muito pequenas para gerar a sustentação necessária para o vôo.
- Limitações das articulações: A amplitude de movimento nas articulações das asas era restrita, evitando o poderoso batimento necessário para a sustentação aerodinâmica.
- Estrutura das penas: O vôo aerodinâmico requer penas assimétricas (onde a borda de ataque é mais estreita que a borda de fuga). Evidências fósseis sugerem que os pennaraptorans não tinham essa morfologia específica das penas.
“Com base no registro fóssil, esses dinossauros ainda não têm penas aerodinâmicas”, explica Son.
Testando comportamento pré-histórico com robôs
Para testar se estas asas não funcionais tinham um propósito diferente, Jablonski e a sua equipa recorreram à paleontologia experimental. Eles construíram um dinossauro robô chamado Robopteryx, inspirado no Caudipteryx, um pennaraptorano do tamanho de um peru com fósseis bem preservados.
O robô foi equipado com asas destacáveis para simular dois cenários: braços nus versus braços com proto-asas. Jinseok Park, ornitólogo atualmente no Instituto Max Planck de Inteligência Biológica, levou o Robopteryx a uma área natural em Seul, na Coreia do Sul, para observar gafanhotos selvagens (Oedaleus infernalis ).
Ao longo de dois verões, a equipe registrou quantas vezes os gafanhotos fugiram quando confrontados pelas “exibições niveladas” do robô. Os resultados, publicados no Scientific Reports em 2024, foram claros: os monitores foram significativamente mais eficazes em assustar insetos quando o robô tinha proto-asas.
Evidência Neural de Gafanhotos
Para aprofundar a mecânica desse comportamento, os pesquisadores foram além dos robôs físicos para simulações de computador. Eles criaram clipes animados do Caudipteryx batendo suas asas e os mostraram para gafanhotos domesticados.
O estudo empregou um método invasivo, mas preciso: eletrodos foram fixados nos cordões nervosos e no abdômen dos gafanhotos para registrar a atividade neural em tempo real. Os dados, publicados no bioRxiv em abril de 2024, mostraram que os gafanhotos tinham uma resposta neural mais forte ao movimento das proto-asas do que aos membros nus. Isto confirma que o estímulo visual da exibição alada tem maior probabilidade de desencadear uma resposta de fuga na presa.
Implicações para a Biologia Evolutiva
Embora o estudo não prove definitivamente que os pennaraptoranos usavam exibições de descarga na natureza, ele demonstra que tal comportamento é biomecanicamente e visualmente plausível. Corwin Sullivan, paleontólogo da Universidade de Alberta, observa que as descobertas apoiam a hipótese de forma “elegante e persuasiva”.
Além disso, Sullivan enfatiza que múltiplas funções podem coexistir. Mesmo que as proto-asas fossem usadas para caça, elas poderiam ter servido simultaneamente para outros propósitos, como exibições de namoro para atrair parceiros. Esta multifuncionalidade é comum na biologia evolutiva, onde uma característica pode originar-se para um propósito e posteriormente ser cooptada para outro.
Conclusão
A evolução do voo pode não ter começado com a necessidade de voar alto, mas com a necessidade de ser visto. Ao usar asas para assustar as presas ou atrair parceiros, os primeiros dinossauros lançaram as bases para estruturas que acabariam por conquistar os céus. Esta pesquisa destaca como experimentos comportamentais podem preencher a lacuna entre os fósseis estáticos e as vidas dinâmicas de animais extintos.
