Descobertas arqueológicas recentes no Reino Unido esclarecem como as primeiras sociedades anglo-saxónicas viam as armas – não apenas como ferramentas de guerra, mas como objectos profundamente simbólicos ligados à identidade, à linhagem e até ao luto. Uma equipe liderada por arqueólogos da Universidade de Lancashire e da Isle Heritage descobriu um cemitério contendo quatro sepulturas de armas, incluindo um impressionante exemplo de uma criança enterrada com uma lança e um escudo. Esta descoberta levanta questões sobre o significado das armas para além do seu uso prático: seriam elas cerimoniais, aspiracionais ou expressões de luto?
O valor das armas além do combate
A escavação, documentada em Digging for Britain da BBC2, revelou espadas com punhos e bainhas de prata ornamentados. Uma arma apresentava uma mistura deliberada de estilos artísticos e datas, semelhante ao Staffordshire Hoard, sugerindo que as espadas mais antigas não foram apenas substituídas, mas também curadas e valorizadas ao longo do tempo. Essa reverência pelo armamento se reflete na poesia do inglês antigo, como Beowulf, que descreve espadas antigas como “endurecidas por feridas” e relíquias de família preciosas.
A presença de armas nas sepulturas não foi aleatória. Vários enterros em outros locais – Dover Buckland, Blacknall Field e West Garth Gardens – mostram padrões semelhantes. O cemitério de Helsterton, em Yorkshire, mostrou evidências de DNA de homens enterrados com armas, que eram biologicamente relacionados com outros enterrados nas proximidades. Isto sugere que as armas podem ter sido um símbolo de família ou de estatuto, com as gerações posteriores enterradas perto dos seus antepassados armados.
Armas em enterros de crianças: um vislumbre de aspirações e perdas
Talvez a descoberta mais comovente tenha sido o túmulo de uma criança, de 10 a 12 anos, enterrada com uma lança e um escudo, apesar da coluna curva que dificultaria seu uso. O túmulo de outra criança continha uma enorme fivela de cinto prateada, grande demais para uma criança de 2 a 3 anos. Estes objectos, tipicamente associados a homens adultos em cargos públicos, sugerem que, mesmo na morte, estas crianças estavam simbolicamente ligadas a papéis masculinos e a potenciais futuros.
As armas não eram apenas para agressão. Amassados nos escudos e desgaste nas lâminas confirmam que foram usados em conflitos, mas o peso emocional desses objetos é inegável. Poemas antigos como Beowulf retratam a dor e a perda ao lado do heroísmo, com os mortos homenageados através de suas armas, como se estivessem se preparando para um futuro que eles não veriam mais. As lanças, escudos e fivelas nos túmulos das crianças falavam dos homens que poderiam ter se tornado.
A descoberta destaca como as armas não eram apenas instrumentos de guerra, mas também expressões de dor, identidade e aspiração na sociedade anglo-saxónica. A disposição cuidadosa das armas ao redor dos mortos sugere um reconhecimento ritualístico da perda, da linhagem e do legado duradouro da masculinidade.

























